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Home»Entretenimento»Sérgio Sampaio volta vívido em ‘Velho bandido’, elogio de Felipe de Oliveira ao artista que ‘matava rato para comer’
Entretenimento

Sérgio Sampaio volta vívido em ‘Velho bandido’, elogio de Felipe de Oliveira ao artista que ‘matava rato para comer’

abril 19, 2025Nenhum comentário0 Visitas

Capa do álbum ‘Velho bandido – Elogio a Sérgio Sampaio’, de Felipe de Oliveira
Autorretrato
♫ OPINIÃO SOBRE DISCO
Título: Velho bandido – Elogio a Sérgio Sampaio
Artista: Felipe de Oliveira
Cotação: ★ ★ ★ ★ 1/2
♬ Sérgio Sampaio foi ácido e certeiro ao se perfilar nos versos “Eu que só tenho essa cabeça grande / Penso pouco, falo muito e sigo pr’adiante / Eu descobri que a velha arca já furou / Quem não desembarcou / Dançou na transação dormindo / E como eu fui o tal velho bandido / Eu vou ficar matando rato pra comer / Dançando rock pra viver / Fazendo samba pra vender sorrindo”, escritos para a letra de samba-choro lançado há 50 anos.
Intitulado Velho bandido, o samba-choro de 1975 dá nome, cinco décadas depois, ao álbum em que o cantor mineiro Felipe de Oliveira aborda o cancioneiro do compositor capixaba. Matar rato pra comer foi metáfora usada por Sampaio para descrever o efeito social causado pelo temperamento indomado do artista face ao capitalismo que dá o tom da indústria da música desde que o samba é samba.
Em rotação desde 11 de abril, o álbum Velho bandido – Elogio a Sérgio Sampaio enfatiza a ideologia de Sérgio Moraes Sampaio (13 de abril de 1947 – 15 de maio de 1994), artista que ganhou projeção nacional em 1972 ao defender a marcha-rancho Eu quero é botar meu bloco na rua (de refrão eletrizante) na sétima e última edição do Festival Internacional da Canção (FIC), mas logo depois jogado na vala dos malditos da MPB.
“Minha lucidez nem me trouxe o futuro”, avaliou e profetizou o compositor já no ano seguinte, em verso da angustiada canção Viajei de trem (1973), também abordada por Felipe de Oliveira em Velho bandido, álbum valorizado pela produção musical, edição, mixagem e masterização de Fillipe Glauss.
Com arranjos sagazes como a poética do compositor, Velho bandido – Elogio a Sérgio Sampaio é o quarto tributo fonográfico a Sérgio Sampaio em dois anos. Em 2023, Cida Moreira e Edy Star apresentaram álbuns com músicas do compositor capixaba, Sérgio Sampaio – Poeta do riso e da dor (2023) e Meu amigo Sérgio Sampaio (2023), respectivamente. No ano passado, saiu o EP Giuliano Eriston interpreta Sérgio Sampaio (2024).
Cada um dos quatro discos tem uma particularidade, um viés, e o do álbum de Felipe de Oliveira passa pelo canto andrógino do artista, ainda um traço dissonante para a parte do mundo que, em 2025, vem tentando reestabelecer fronteiras rígidas entre gêneros.
Outro traço marcante de Velho bandido é o realce da inadequação de Sérgio Sampaio a um sistema que parecia ávido por deglutir o compositor. Sintomaticamente, o álbum abre em ritmo de blues (o gênero dos excluídos pela sociedade) com Meu pobre blues, composição de 1974 em que Sampaio versou sobre o sonho de ter música gravada por Roberto Carlos (então no auge da popularidade no status quo), já prevendo a falência na tentativa vã de realizar tal sonho, recorrente entre os compositores dos anos 1970.
No álbum Velho bandido, Felipe de Oliveira alinha 13 músicas de Sérgio Sampaio em 12 faixas. A diferença se dá porque o samba-choro que nomeia o disco aparece agregado em medley com Chorinho inconsequente (Sérgio Sampaio e Erivaldo Santos, 1971).
Como o contemporâneo Belchior (1946 – 2017), Sérgio Sampaio carregava na obra o peso da cabeça. O que talvez explique a ânsia e a agonia que rondam Roda morta (Sérgio Sampaio e Sérgio Natureza, 2006), outra música da coerente seleção de Felipe de Oliveira.
Essa ânsia aflitiva reverbera em Tem que acontecer (2006) – único possível hit de Sampaio depois da onda do festival de 1972 – nesse álbum formatado com os toques dos músicos André Milagres (guitarra e violão de sete cordas), Gabruga (teclados), Marco Aur (baixo) e Yuri Vellasco (bateria e percussão).
Somente o sopro melancólico do trombone de Norton Ferreira sublinha o canto do intérprete em Nem assim (1982), reiterando o foco na poética do compositor. Afiada, a guitarra de André Milagres entrecorta o samba Foi ela (1974) enquanto o arranjo suave de Destino trabalhador (1994) suaviza o corte da navalha na carne do compositor em único momento de desajuste entre música e arranjo.
A rigor, inexistem excessos nos arranjos criados de forma coletiva pelos músicos e o produtor sob a direção do cantor. Tal precisão contribui para evidenciar a poética refinada de Meu pobre pai (1973), um dos achados da seleção de Felipe de Oliveira.
As sete cordas do violão de André Milagres conduzem o canto do artista em Maiúsculo (2006), outra pérola rara entre as joias (a rigor, quase todas raras) do álbum Velho bandido.
Intérprete identificado com o universo da MPB, como já mostrara nos álbuns Coração disparado (2018) e Terra vista da lua (2021), Felipe de Oliveira se mostra cantor vocacionado para dar voz a músicas como Não adianta (1972). As letras saltam aos ouvidos com clareza.
No arremate do disco, O que será de nós (1976) menciona na letra o Roberto Carlos que inspirou Sérgio Sampaio na criação do Meu pobre blues alocado no início do álbum, amarrando a costura fina de Velho bandido.
No melhor título da discografia de Felipe de Oliveira, Sérgio Sampaio ressurge aflito e vívido com a lucidez poética que nunca lhe deu futuro, mas paradoxalmente garantiu ao compositor um lugar na galeria dos imortais da música brasileira.
Felipe de Oliveira canta 13 músicas do compositor capixaba Sérgio Sampaio (1947 – 1974) nas 12 faixas do álbum produzido por Fillipe Glauss
Autorretrato

Fonte: G1 Entretenimento

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